Em sua célebre obra Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas (1711), o jesuíta André João Antonil (pseudônimo de João Antônio Andreoni) faz um dos relatos mais fascinantes, detalhados e críticos sobre o início do ciclo do ouro em Minas Gerais.
A visão de Antonil sobre as Minas Gerais é profundamente dual: ao mesmo tempo em que ele fica deslumbrado com a riqueza e a abundância do território, demonstra uma enorme preocupação com os impactos sociais, morais e econômicos que a febre do ouro trouxe para o restante da colônia e para a Coroa portuguesa.
A descrição de Antonil sobre a região das Minas estrutura-se em quatro pilares principais:
Antonil descreve Minas Gerais como um poço de recursos valiosos, detalhando meticulosamente os ribeiros, as lavras e os métodos que os mineradores utilizavam para extrair o ouro da terra e da água. Ele não faz apenas literatura; seu olhar é técnico e quase pericial, registrando a topografia e a abundância do metal que parecia brotar com facilidade no início do século XVIII.
O jesuíta testemunhou a corrida do ouro e relatou o imenso fluxo migratório de brancos, pardos, negros, paulistas, emboabas, ricos e pobres que abandonavam tudo para tentar a sorte na região. Ele descreve as Minas como um ambiente inicialmente caótico, sem lei e violento, marcado pela ganância e pela falta de estrutura urbana básica.
Um dos capítulos mais famosos de sua descrição trata da inflação galopante na região das Minas. Antonil relata que, pela falta de agricultura local (já que todos só queriam minerar) e pela dificuldade dos caminhos, os mantimentos básicos vinham de fora e custavam fortunas em ouro. Um gato para caçar ratos nos armazéns, um pedaço de pão ou um boi custavam preços astronômicos que assustavam a corte na Europa.
Para Antonil, a descoberta do ouro em Minas Gerais causou graves prejuízos econômicos à estabilidade do Brasil colonial:
Abandono dos Engenhos: Ele lamentava que muitos senhores de engenho do Nordeste abandonavam a produção de açúcar e tabaco (que ele considerava as verdadeiras riquezas sustentáveis) para se aventurar nas minas.
Fuga de Mão de Obra: O preço dos escravizados africanos disparou, pois os mineradores podiam pagar muito mais por eles do que os agricultores, desfalcando os campos de cultivo do restante da colônia.
O destino do livro: A descrição de Antonil sobre os caminhos exatos para chegar às Minas Gerais (como o Caminho Velho) e a contabilidade da extração do ouro eram tão precisas e detalhadas que a Coroa Portuguesa, temendo o contrabando e a invasão de outras potências europeias, ordenou a apreensão e a destruição de quase todos os exemplares da obra logo após a publicação em 1711. O livro passou mais de um século proibido.
Os viajantes partiam de São Paulo e seguiam em direção ao Vale do Paraíba. Essa primeira fase da viagem, embora cansativa, cruzava algumas vilas já estabelecidas (como Taubaté e Guaratinguetá), onde era possível conseguir algum pouso e mantimentos básicos.
O caminho margeava rios e exigia a travessia de áreas de mata que, em época de chuva, transformavam-se em lamaçais intransitáveis.
O ponto de maior inflexão e sofrimento da viagem era a transposição da Serra da Mantiqueira, feita pela chamada Garganta do Embaú (na divisa atual entre Cruzeiro-SP e Passa Quatro-MG).
A subida era uma rampa quase vertical, estreita e pedregosa. Os relatos da época apontam que:
Os animais frequentemente escorregavam no abismo, perdendo a carga e a vida.
Os viajantes precisavam subir segurando-se em raízes e galhos.
O clima mudava drasticamente, com um frio intenso e neblina densa no topo da serra, contrastando com o calor do vale.
Uma vez superada a muralha da Mantiqueira, entrava-se no verdadeiro "sertão". Nesta fase, as vilas desapareciam. Os viajantes cruzavam rios caudalosos (como o Rio Grande) em balsas improvisadas ou pontes rudimentares feitas de troncos, cobradas por balseiros autorizados pela Coroa.
Para entender o tamanho do sacrifício, a rotina dos viajantes incluía:
Pousos no Tempo (Ranchos): Não existiam hotéis ou estalagens. Os viajantes dormiam em "ranchos" — estruturas precárias de palha abertas nas laterais — ou diretamente sob as árvores, enfrentando tempestades, ataques de onças e cobras.
Alimentação de Monção: A dieta era extremamente restrita e seca para não mofar: farinha de mandioca ou de milho, carne seca (charque) e feijão. Se os mantimentos acabassem antes de chegar aos arraiais mineradores, a fome era inevitável, pois quase não havia comércio no caminho.
Insegurança Constante: O medo de assaltos por parte de desertores, escravizados fugidos ou ataques de povos indígenas nativos que defendiam seu território (como os puris e botocudos) obrigava os viajantes a andarem sempre armados e em grandes grupos (as caravanas).
Essa rota era tão penosa e demorada que motivou a abertura do Caminho Novo a partir de 1700, que ligava as Minas diretamente ao Rio de Janeiro, encurtando a viagem e evitando a terrível escalada da Mantiqueira pelo interior paulista.